Rosemunu's Blog











{31/07/2010}   Quando nada mais resta
          Enquanto avançamos aos tropeços, quilómetros a fio, vadeando pela neve ou resvalando no gelo, constantemente nos apoiamos um no outro, erguendo-nos e arrastando-nos mutuamente. Nenhum de nós pronuncia uma palavra mais, mas sabemos neste momento que cada um ainda só pensa em sua mulher. Vez por outra olho para o céu aonde vão empalidecendo as estrelas, ou para aquela região no horizonte em que assoma a alvorada por detrás de um lúgubre grupo de nuvens. Mas agora meu espírito está tomado daquela figura à qual ele se agarra com uma fantasia incrivelmente viva, que eu jamais conhecera antes na vida normal. Converso com minha esposa. Ouço-a responder, vejo-a sorrindo, vejo seu olhar como que a exigir e a animar ao mesmo tempo e – tanto faz se é real ou não a sua presença – seu olhar agora brilha com mais intensidade que o sol que está nascendo. Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora as coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada – ainda que somente por alguns momentos – entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. Pela primeira vez na vida entendo o que quer dizer: Os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita. . . A minha frente um companheiro cai por terra, e os que vão atrás dele também caem. Num instante o guarda está lá e usa seu chicote sobre eles. Por alguns segundos se interrompe minha vida contemplativa. Mas num abrir e fechar de olhos eleva-se novamente minha alma, salva-se mais uma vez do aquém, da existência prisioneira, para um além que retoma mais uma vez o diálogo com o ente querido: Eu pergunto – ela responde; ela pergunta – eu respondo.
            “Alto!” Chegamos ao local da obra. “Cada qual busque sua ferramenta! Cada um pegue uma picareta e uma pá!” E todos se precipitam para dentro do galpão completamente às escuras para arrebanhar uma pá jeitosa ou uma picareta mais firme. “Como é, não vão se apressar, seus cachorros imundos?” Dali a pouco estamos no valo, cada um em seu lugar da véspera. A picareta estilhaça o chão congelado, soltando até fagulhas. Nem mesmo os cérebros ainda degelaram, os companheiros continuam calados. Meu espírito ainda se apega à imagem da pessoa amada. Continuo falando com ela, e ela continua falando comigo. De repente me dou conta: nem sei se minha esposa ainda vive! Naquele momento fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu “ser assim” (nas palavras dos filósofos) que a sua “presença” e seu “estar aqui comigo” podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida. Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva. Durante todo o período do campo de concentração não se podia escrever nem receber cartas. Mas isto naquele momento de certa forma não tinha importância. As circunstâncias externas não conseguiam mais interferir no meu amor, na minha lembrança e na contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela ocasião tivesse sabido: minha esposa está morta – acho que este conhecimento não teria perturbado meu enlevo interior naquela contemplação amorosa. O diálogo intelectual teria sido intenso e gratificante em igual escala. Naquele momento me apercebo da verdade: “põe-me como selo sobre o teu coração… porque o amor é forte como a morte.” (Cântico dos Cânticos 8.6).
 Viktor Frankil
ex-prisioneiro de um campo de concentração
capítulo do livro “Em busca de sentido


{24/07/2010}   Monólogo na madrugada
        Estás no valo trabalhando. O crepúsculo que te envolve é cor-de-cinza, o céu acima é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor-de-cinza. Retomas outra vez o diálogo com o ente querido. Pela milésima vez lanças rumo ao sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e de teu sacrifício – o sentido de tua morte lenta. Numa revolta última contra o desespero da morte à tua frente, sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve, e nesta revolta derradeira sentes que teu espírito se alça acima deste mundo desolado e sem sentido, e tuas indagações por um sentido último recebem, por fim, de algum lugar, um vitorioso e regozijante “sim”. Nesse mesmo instante acende-se ao longe uma luz, na janela de uma distante moradia camponesa, postada feito bastidor à frente do horizonte, em meio à cinzenta e desolada madrugada bávara “et lux in tenebris lucet”, e a luz resplandece nas trevas. Agora estiveste horas a fio picando o chão congelado, outra vez passou a sentinela e debochou um pouco de ti, e de novo recomeças o diálogo com teu ente querido. Tens cada vez mais o sentimento de que ela está presente. Sentes que ela está ali. Crê poder tocá-la, parece precisares apenas estender a mão para tomar sua mão. E com grande intensidade te invade o sentimento: Ela, está aqui! Eis cá aquilo: no mesmo instante – o que é aquilo? – sem que tenhas notado, acaba de pousar um passarinho bem à tua frente, sobre o torrão que recém cavaste, parte fitar atento e sereno. . .
Viktor Frankl
ex-prisioneiro de um campo de concentração
   capítulo do livro “Em busca de sentido”


{20/06/2010}   Lamentável

  

Nesse final de semana o mundo perdeu um grande malabarista da lígua portuguesa. José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo (Portugal), no dia 16/11/1922 e faleceu na última sexta-feira 18/06/2010 em Lanzarote na Espanha, onde vivia atualmete, vítima de múltipla falha de órgãos, aós prolongada doença. Ele era um grande escritor de língua portuguesa que criou um sistema próprio de pontuação, utilizando apenas ponto final e vírgula, obrigando o leitor a entrar no seu jogo, e além disso, conseguia prender nossa atenção com os temas de suas obras. Tive contato com sua escrita na faculdade logo no primeiro semestre e nos seguintes comprovei o quanto era adimirado pelos professores. De sua vasta obra li apenas quatro: As intermitências da morte (2005); A jangada de pedra (1986); O conto da ilha desconhecida (1998); Memorial do convento (1982). O que mais gostei foi o primeiro, porque achei genial a forma que ele encotrou pra dizer como o ser humano é insatisfeito. Acho interessante o fato dele nunca ter permitido fazerem alterações na grafia de seus textos em outros países, ele fazia questão que fossem publicados em países de língua portuguesa com a ortografia de Portugal. Seu último romance foi Caim, lançado no ano passado. Imagino que os professores de língua portuguesa tenham sentido muito essa perda, e mais ainda os portugueses que se orgulhavam tanto dele. Ainda não consigo acreditar que ele faleceu, lembro que quando uma colega de sala deu a notícia todos pensaram que fosse uma brincadeira, mas fazer o que: tudo tem o seu período de nascimento, crescimento e morte.



{20/03/2010}  
Quando eu não te tinha
Amava a natureza como um monge calmo a Cristo…
Agora amo a natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor-
Tu não me tiraste a natureza…
Tu não me mudaste a natureza…
Trouxeste-me a natureza para o pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.
Um dos poemas que compõe o livro “O pastor amoroso” de Alberto Caeiro


{26/02/2010}  
Estava arrumando meus papéis e encontrei um livro muito interessante e divertido que eu ganhei de presente de uma professora de língua portuguesa. O autor cont de forma irreverente a vida do dramaturgo inglês William Shakespeare. Eu indico esse livro pra todos que desejam conhecer um pouco mais desse grande talento e ainda dar boas risadas. Coloco aqui a versão atual que ele deu a citações famosas das peças shakespeariana:
 
  • Ricardo III, escrita em 1592
Citações famosas:
“E assim, já que não posso ser amante […], estou decidido a ser vilão.” (Ricardo III)
Trad.: Como não dá pra ser do bem, vou ser do mal.
 
 
  • Romeu e Julieta, escrita em 1595
Citações famosas:
“Ó Romeu, Romeu! Por que és tu Romeu?” (Julieta)
Trad.: Pô, Romeu, que azar! Logo você!
“Mas, silêncio! Que luz se filtra agora através da janela? É o Oriente, e Julieta é o sol.” (Romeu)
Trad.: Ju, você é um arraso!
 
 
  • O mercador de Veneza, escrita em 1597
Citações famosas:
“A natureza da graça não é forçada. Ela cai como a chuva benéfica do céu.” (Pórcia)
Trad.: Pega leve Shylock!
“Se tu nos espetas, não sangramos?
 Se tu nos fazes cócegas, não rimos?
 Se tu nos dás veneno, não morremos?
 E se tu nos fazes mal, não devemos nos vingar?” (Shylock)
Trad.: Bateu, levou!
 
 
  • Noite de reis, escrita em 1600
Citações famosas:
“Alguns nascem grandes, alguns conquistam a grandeza e alguns vêem a grandeza lhes cair em cima.” (Malvólio)
Trad.: Modéstia à parte, eu sou o máximo!
“Se a música é o alimento do amor, então toquem!” (Duque Orsino)
Trad.: Nada como uma musiquinha para criar um clima.
 
 
  • Henrique V, escrita em 1599
Citações famosas:
“Gritem: ‘ Deus por Henrique, a Inglaterra e São Jorge.” (O célebre grito de batalha de Henrique V)
Trad.: Vamos nessa moçada!
“Mais uma vez à brecha, bons amigos mais uma vez!” (Henrique V)
Trad.: Vamos nessa moçada! É hora do repeteco!
 
 
  • Othello, escrita em 1604
Citações famosas:
Cuidado, senhor, com o ciúme: é um monstro de olhos verdes que zomba do próprio prato que o alimenta.” (Iago)
Trad.: Cabeça fria cara (dito por Iago eesquenta a cabeça de Otelo)
 
 
  • Macbeth, escrita em 1606
Citações famosas:
“Será um punhal que vê em minha frente…?” (Macbeth)
Trad.: Cacilda, ando vendo coisas!
“A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e se agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido: é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria, que nada significa.” (Macbeth)
Trad.: Não devia ter saído da cama hoje.
 
 
  • A tempestade, escrita em 1611
Citações famosas:
“Ó admirável mundo novo, onde existe gente assim!” (Miranda ao ver um rapaz pela primeira vez)
Trad.: Quero um pra mim também.
 
 
  • Hamlet, escrita em 1601
Citações famosas:
“Ser ou não ser – eis a questão
 Será mais nobre sofrer na alma
 Pedradas e flechadas do destino feroz
 Ou pegar em armas contra o mar de angústias – 
 E, combatendo-o, dar-lhe fim?” (Hamlet)
Trad.: Ah, sei lá! Mil coisas!
 
 
Fonte: DONKIN, Andrew. Willian Shakespere e seus atos dramáticos. São Paulo: Cia. Das Letras, 2006. (mortos de fama)


      Eu gosto muito dessa música, que foi tema da MA-RA-VI-LHO-SA microssérie brasileira Capitu, a qual retratou muito bem o livro, parecia até que eu o estava lendo novamente. Nesse vídeo do youtube temos o grupo Beirut cantando a música e o  clipe original.

 

      Esse outro vídeo mostra trechos da produção global, os quais  mostram partes importantes da história de Bento Santiago, recompondo o romance. Além disso, tem a letra traduzida; na minha opinião a música foi muito bem escolhido, para mim ela combina de verdade com o narrador-protagonista do romance Dom Casmurro.

       Eu escolhi dois capítulos que gosto muito na obra de Machado de Assis, um é o meu preferido e o outro é o último do romance. Para quem ainda não leu fica aqui um aperitivo e a dica de uma ótima leitura.

LXXV O DESESPERO (p. 109)
             Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.
            Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterra-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue.
 
 
CXLVIII É BEM, E RESTO? (p. 183-4)
      Agora, porque eu nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach ¹, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. XI, vers. 1: “Não tenhas ciúmes de tu mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia eu aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
      É bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! Vamos à História doa Subúrbios.

   ¹Jesus, filho de Sirach: autor de O eclesiástico, um dos livros do Antigo Testamento. (N.E.)

ps: os trechos foram retirados de: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 39ªed. São Paulo: Ática, 2004. (série bom livro)



{16/10/2009}   Saudades
[…] E quantas vezes ñ dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas,
E q o céu ia abrir-se, e entre os anjos
Eu ia me acordar em noites puras? […]
Álvares de Azevedo


{16/10/2009}   Desalento
[…] Que me resta meu Deus?! aos meus suspiros
Nem geme a viração,
E dentro – no deserto do meu peito
Não dorme o coração!`
Álvares de Azevedo


{14/10/2009}   O poeta
[…]  Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me desmaiam assim?
Ou então, de noite, a medo
Choraríeis em segredo
Uma lágrima por mim?
Álvares de Azevedo


{14/10/2009}   Anjinho
Não chorem! que ñ morreu!
Era um anjinho do céu
Q um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
era uma estrela divina
Que ao firmamento voou! […]
Álvares de Azevedo


et cetera